Por Pedro Araújo
Mensagem pregada no domingo, 21 de Abril de 2013,
na 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Sinop.
“Então Jesus chamou-os para junto de si e lhes disse: sabeis que os que são reconhecidos como governadores dos gentios, deles se assenhoreiam, e que sobre eles os seus grandes exercem autoridade. Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos. Pois também o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.”
(Marcos 10:42-45)
Introdução
Este texto traz a nós uma clara lição de Jesus sobre humildade e nos defronta e faz lembrar mais uma vez dos fascinantes paradoxos do Evangelho: “é melhor dar do que receber”, “é morrendo que se vive”, “aquele que perde, encontra”, “é necessário amar quem nos odeia”, “abençoar quem nos persegue”, “retribuir o mal com o bem”, “pedir perdão mesmo que sejamos nós quem foi ofendido”, “saber como se portar entre os fracos, mesmo sendo forte”, “o maior seja como o menor”, “o primeiro se coloque como o último”, “as autoridades ajam como servos”.
Aqui Jesus compara as atitudes de seus discípulos com o sistema do mundo. O mundo tem seus dominadores, tem quem manda e quem obedece, tem os seus famosos e os considerados anônimos, os grandes e os pequenos. Mas entre os discípulos, entre nós, não deve ser assim. Isso não significa que Jesus é contra qualquer forma de governo ou organização social, e muito menos que seja defensor da anarquia. Mas o que Ele está deixando claro é que não aceita a hipocrisia, a segregação, a arrogância e a demagogia.
Ao relatar de modo paralelo esta passagem, Lucas 22:25 diz: “Ao que Jesus lhes disse: os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que sobre eles exercem autoridade são chamados benfeitores”. A questão é que muitos destes reis é que se autointitulavam “benfeitores”, mas quase sempre sem nenhuma justificativa plausível, apenas com o objetivo de serem reverenciados pela posição que ocupavam e por seus supostos atos de justiça, uma tendência seguida até hoje, por exemplo, por ditadores e líderes totalitaristas que oprimem seu próprio povo, e ainda assim se julgam pais e salvadores da pátria.
Foi justamente esta mancha que Jesus enxergou na intenção de seus discípulos, que não tinham entendido que deveriam simplesmente servir como Jesus, sem ambicionar glória pessoal. Olhando o contexto desta passagem, notamos que até então os discípulos ainda estavam muito longe de compreender o que Jesus tinha vindo fazer na terra e, especialmente, a essência de Seus ensinamentos. Longe a tal ponto de disputarem entre si a usurpação da preeminência uns sobre os outros. Os evangelhos diferem um pouco quanto aos detalhes e quanto à própria situação que levou Jesus a exortá-los com as Palavras que lemos no nosso texto base, o que pode indicar também que este tipo de atitude infantil era algo recorrente entre eles (o que de fato veremos em outras passagens mais adiante). De qualquer modo, o problema era: uns queriam ser melhores que os outros.
Interessante que em Lucas 22:24 lemos que eles discutiam entre si sobre quem pareci ser o maior, e isso depois da última ceia, depois de Jesus, o Rei dos reis, ter lavados os pés de cada um deles, depois de tê-los inclusive servido à mesa. Mateus 20:21 e Marcos 10:37 relatam uma atitude um pouco mais ousada relacionada ao momento em questão. Tiago e João, acompanhados de sua mãe – e, provavelmente, de toda a família – tiveram a cara de pau de tentar garantir para si uma lugar à direita e à esquerda de Cristo em Seu trono na glória. Eles não entenderam o ensinamento de Jesus sobre a verdadeira grandeza, e aí a confusão se armou. Lemos em Mateus 20:24 e Marcos 10:41 que isso deixou os outros discípulos indignados. Só que não foi uma indignação pelo fato dos dois não terem entendido o ensinamento, mas porque eles também estavam interessados em garantir para si os mesmos assentos. O fato é quem ninguém de todos eles entendeu nada, estavam todos cheios de noções mundanas sobre poder e autoridade. Se voltarmos as páginas da Bíblia para um pouco antes do nosso texto base, nos depararemos em Marcos 9:33-37 com eles mais uma vez discutindo no caminho pra casa quem era o maior. Jesus percebe e os exorta: “quem quiser ser o primeiro, seja servo; seja como uma criança”. O mesmo erro e o mesmo ensinamento no capítulo 9. O mesmo erro e o mesmo ensinamento no capítulo 10. E ainda assim eles custavam a entender.
Numa analogia, Jesus não estava dizendo que o estabelecimento de lideranças entre nós é algo ruim em si, mas indicou como isso deve ser exercido. Nossa tendência é querer agir conforme os exemplos dos líderes deste mundo, mas a maneira com que Jesus cumpriu Seu papel messiânico, sem segundas intenções, é que deve ser o modelo para nós em qualquer posição ou cargo que formos exercer, tanto na sociedade de modo geral quanto, e especialmente, no Reino de Deus.
Devemos agir como crianças, não que crianças sejam inocentes e perfeitas, mas porque elas não fingem ser o que não são, e delas sabemos o que esperar. Na época, ser comparado e exortado a ser a criança era ser considerado sem importância, e o que Jesus quis dizer com isso era para que os discípulos assumissem uma posição de simplicidade, para que pudessem entender o que de fato significa ser grande, pois a verdadeira grandeza se manifesta em humildade e não procura se sobressair sobre ninguém.
Desta forma, somos levados a refletir sobre três pontos, e considerar em que estamos nos encaixando.
A ambição de ser o maior
Vimemos numa sociedade que prega o individualismo e fomenta a desigualdade entre as pessoas. Fala-se que ultimamente as pessoas pensam cada vez mais somente em si mesmas, mas podemos dizer que sempre foi assim – a diferença é que antes não havia TV e Facebook pra ficarmos tão bem informados, ou então porque nunca prestamos atenção nos livros de história.
Ao longo dos séculos, o homem subjugou e escravizou seus semelhantes, pessoas foram submetidos a um estado sub-humano de vida e nações chegaram a ser divididas por causa de preconceitos raciais. Milhões foram mortos em cruzadas de limpeza étnica em nome da supremacia de raças que se consideravam puras. Civilizações de nativos foram saqueadas e muitas dizimadas pra saciar a ganância de povos imperialistas.
“Num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” como o nosso, pessoas morrem de fome, morrem vítimas da criminalidade urbana, morrem em conflitos agrários, nas filas dos hospitais, morrem mental e culturalmente sem acesso à educação de respeito, morrem de frio nas ruas ou nos deslizamentos de terra provocados pelas “águas de Março” por não terem direito à moradia digna, enquanto o bolso dos corruptos se enche do dinheiro público que deveria servir para o bem estar de todos.
E os responsáveis por tanta injustiça não estão só em Brasília. Quantos de nós, patrões, não exploramos nossos empregados, quantos de nós não queremos levar vantagem na base do “jeitinho brasileiro”, quantos de nós não traímos e damos prejuízo ao nosso país quando resolvemos nos igualar aos corruptos que tanto criticamos nos dando o direito de sonegar impostos ou mentir pra declaração de imposto de renda – podemos até enganar o leão da Receita Federal, mas ao Leão da Tribo de Judá, a esse ninguém engana.
Somos mal educados, destratamos as pessoas quando nos julgamos estar com a razão, xingamos no trânsito, socamos a mesa, furamos a fila. Tudo isso por acharmos que somos melhores ou maiores que os outros.
O mundo incentiva a competitividade, e antes fosse uma simples questão relacionada a empreendedorismo, se no final das contas isso não significasse a busca por sucesso a qualquer custo.
Mas infelizmente não é só no mundo. Tal mal também assola a cristandade e ronda aquela que se diz igreja. Muitos dizem que o mudo tem entrado na igreja, e de fato tem, mas nem tanto por causa de estilos musicais de gosto duvidoso, jeito de se vestir ou até mesmo questões morais. Como diz Ariovaldo Ramos, “você sabe que o mundo entrou na igreja quando as pessoas deixam de se ver como iguais”. O desejo de poder levou muitos a envergonharem o Evangelho, promovendo desde violência psicológica e intelectual ao derramamento de sangue inocente em nome de “guerras santas”. Parece que ao longo dos séculos o cristianismo deixou de ser cristão.
E se na história e mesmo na sociedade contemporânea nosso testemunho é manchado, no nosso relacionamento interno a coisa não fica por menos. Queremos os títulos, os cargos (pra sermos servidos deles), queremos a alcunha de “grandes homens de Deus”, de profetas, apóstolos, patriarcas, papas, gurus, veneráveis, grão-mestres. Esconjuramos o satanás com cabeça de bode dos grupos conspiratórios, mas, a exemplo deles, queremos estabelecer graus e castas espirituais entre nós. Pervertemos a caminhada com Cristo em “carreira ministerial”, digo, “carreira gospel”.
Supostos pastores por aí se autointitulam os “ungidões”, e ai de quem os questionar, de quem denunciar sua apostasia. Ai de quem tocar no “ungidão”. Como diz o Rev. Augustus Nicudemus Lopes, nestes casos, “‘não toque no ungido do Senhor’ é apelação de quem não tem nem argumento e nem exemplo para dar como resposta”.
Pisamos o sangue da Aliança da Graça, para abraçarmos um humanismo de quinta categoria e um hedonismo cínico travestidos de “evangelho”. Desprezamos a Palavra Fiel e canonizamos as profetadas dos falsos guias para dar base à usurpação da glória que pensamos pertencer a nós. A idade das trevas parece não ter acabado enquanto vemos os mercenários da teologia da prosperidade – como diz Caio Fábio – fazerem os vendedores de indulgências que tiraram Lutero do sério se sentirem no jardim de infância da estelionatagem.
Já não se encontra doxologia nas nossas canções, pois a maioria delas falam mais de nós do que de Deus. Uma música que se diz gospel, mas que está impregnada de uma filosofia satanicamente antropocêntrica, umbigocêntrica. Hedonismo disfarçado de “louvor profético”. O homem para de ouvir a voz de Deus e passa a cantar e ordenar aquilo que deseja. Milagres em prol do nosso ego e bens materiais passam a ser sinal de que aí sim o cara é abençoado e verdadeiramente fiel. Só vitória, só bajulação de si mesmo. É a conversão póstuma de Raul Seixas: “faça o que tu queres será o todo da lei” virou “eis que te digo que o que tu queres será aquilo que Deus estará obrigado a honrar e ter que querer – pro crentino mimado não ficar emburrado – e tudo certo”.
São tantos que se dizem servos de Deus, que pensam ter pago algum preço que os faz achar serem donos das consciências e das almas dos fiéis. E num profano corporativismo “evangélico”, defendemos o lobo e sacrificamos as ovelhas – tudo pra ficar bem na fita com os poderosos do show bizz gospel. A verdade é queremos nos engrandecer não somente sobre os nossos irmãos, mas contra o próprio Deus, pois caímos na velha proposta da serpente: “comam e sejam iguais a Deus”. É a mesma pretensão luciferiana relatada em Ezequiel 28, de querer se exaltar diante de Deus, ou acima d’Ele, se possível fosse.
E não adianta pensarmos que isso só serve pra quem está por aí corrompendo palcos e púlpitos. II Timóteo 4:3-4: “Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas”. Há muito que estes tempos estão entre nós, e muitas vezes eu e você somos cúmplices deste sistema sectário e opressor quando nos encontramos entre os que só querem ouvir o que lhes agrada, para nos sentirmos grandes.
O câncer da falsa humildade
Se a ambição descarada de querer ser o maior nos escandaliza, o segundo ponto em questão talvez seja mais desleal ainda. A falsa humildade e a falsa promoção da igualdade entre as pessoas são sutis.
Como se fala ultimamente em tolerância, respeito às diversidades, proteção das minorias. Proclama-se e marcha-se pela paz entre as pessoas e povos. Mas a pergunta é: como alcançaremos este bem comum de que tanto se fala, se ao mesmo tempo os mesmos que se dizem pacificadores pregam coisas como “pense em você mesmo”, “ligue o botão do ‘dane-se’” (com o perdão da palavra), “seja feliz acima de tudo e de todos”?
Como poderemos alcançar o fim do bem comum, coletivo, se os meios adotados na prática são individualistas?
Aqueles que dizem querer uma sociedade mais igualitária, querem fazer isso impondo a sua agenda. E quando conseguem, viram a mesa. E já está virada. Como diz a canção do Resgate: “diziam que eram coitados, amordaçados pela censura, agora desfilam nas bancas, imprimem a própria ditadura”. Os antes oprimidos e reprimidos agora defendem seu próprio conceito de liberdade com argumentos de opressão e repressão. Não há dúvidas de que a maioria dos discursos que falam em paz e justiça por aí não passam de demagogia. Cada um quer puxar a sardinha pro seu prato. Enquanto isso, os realmente injustiçados estão desassistidos.
E nós, cristãos? Diante disso, quantas vezes somos omissos e medíocres. Nos preocupamos mais com temas periféricos e passamos por alto o que realmente importa. Fazemos do suposto moralismo nossa agenda de Reino, enquanto somos displicentes na assistência às viúvas e órfãos em suas aflições à nossa volta. Lavamos o exterior do copo e do prato, mas por dentro os deixamos cheios de rapina e intemperança. De que adianta gritar pro mundo aquilo que somos contra, se não fazemos sabido do que somos a favor, se é que realmente somos a favor do Evangelho puro e simples.
Não conseguimos convencer ninguém, e ainda achamos que podemos enganar a nós mesmos. Não promovemos reconciliação no mundo, e ainda promovemos cada vez mais divisão entre nós. Fechamos os olhos, fingimos que está tudo bem. Insistimos em frases de efeito, tais como “o que nos une é maior que o que nos separa” – bem, isso, se não é uma mentira, é no mínimo um contrassenso, caso contrário não haveria tanta divisão entre nós. Ficamos em cima do muro, vivemos na mornidão em nome de um amor fingido, calamos e consentimos com erros que geram morte, de esperanças e de pessoas. Somos separados pela Palavra, pois uns resolveram desobedecê-la para satisfazer suas próprias concupiscências.
Pelo que Paulo nos perguntaria em I Coríntios 13: “que amor é ente que folga com a injustiça, que se ensoberbece”? Que amor insensível à dor do próximo é este, a despeito das ministrações musicais carregadas de emocionalismo? Que amor é este que alega ser o amor que edifica, que se apresenta cheio de piedade contra aquilo que chamam de letra que mata, quanto apoiam, como diz John Piper, todo tipo de onda, mover e más teologias que ferem o povo?
Que amor é este, que se lança a avivamentos que cobram R$ 100,00, R$ 200,00, R$ 300,00 pelo ingresso de um show gospel. Que amor é este que faz da devoção uma barganha, do sobrenatural uma superstição? Que amor é este que clama misericórdia para si e para seu grupo de interesse, mas aos outros brada juízo implacável? Que amor é este cuja tolerância é moeda de troca para seus próprios interesses?
Difícil de se convencer que isso é amor. Que haja humildade nisso, se nos baseados em meias-verdades. E basta que uma gota da verdade nos confronte para que a nossa unidade entre em crise. Como diz Rev. Hernandes Dias Lopes, “nessa sociedade hedonista, que defende a tolerância, a única coisa que não toleram é a verdade”. Como viveremos como iguais assim?
A verdadeira igualdade
Por fim, mais importante que entendermos aquilo que não devemos ser, é entendermos e vivermos aquilo devemos ser. O ensinamento de Jesus é muito simples e claro. Em nenhum momento estamos afirmando que qualquer tipo de formalização, institucionalização ou organização hierárquica entre nós são mas em si mesmas. Essas coisas são inclusive necessárias, desde que compreendamos qual o verdadeiro papel delas. Como nação, precisamos sim de governantes e representantes. Como sociedade, precisamos de lideranças. Como alunos, precisamos de professores. Como povo de Deus, precisamos de presbíteros e pastores.
Como igreja, precisamos sim de organização, de que pessoas ocupem cargos e desempenhem funções específicas. Não devemos esperar que todos recebam os mesmos dons, talentos, funções e responsabilidades. “E o Senhor deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo; para que não mais sejamos meninos, inconstantes, levados ao redor por todo vento de doutrina, pela fraudulência dos homens, pela astúcia tendente à maquinação do erro; antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo n’Aquele que é a cabeça, Cristo, do qual o corpo inteiro bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, efetua o seu crescimento para edificação de si mesmo em amor” (Efésios 4:11-16).
Através de funções específicas, Deus providenciou os meios para moldar e harmonizar a diversidade que Ele mesmo criou. Por isso, Ele mesmo, por exemplo, estabeleceu entre nós líderes, não para que estes se servissem a si mesmos de suas posições, mas para servirem o Corpo, ajudando cada crente a encontrar sua própria maneira de beneficiar toda a igreja. Não recebemos nós diferentes dons e funções para os usarmos individualmente a fim de alimentarmos nosso ego. Ninguém cresce sozinho e independentemente do outro.
Essa diversidade criada por Deus não é para que nos sintamos diferentes, melhores ou maiores por aquilo que somos ou a posição que temos, mas para que todos se sintam interdependentes, para que um supra as carências do outro, para que nos completemos como família e nas nossas diferenças cresçamos em amor. Isso está na essência do que Jesus disse aos discípulos no nosso texto base. Todo chamado, por mais particular ou específico que seja, é um chamado pra servir a Deus e ao próximo, e não para sermos servidos.
Efésios 5:21 diz que devemos nos submeter uns aos outros no temor de Cristo. Isso é ser cheio do Espírito. Isso serve pra todos, não importa sua posição social, seus conhecimentos, seu tempo de igreja. Isso reforça a ênfase do Novo Testamento em que devemos moldar nossos estilos de relacionamento na humildade e bondade de Cristo, pois o Espírito de Deus não tolera os orgulhosos, os que se acham auto-suficientes, os que querem engrandecer a si mesmos.
E, acima de tudo, o incontestável exemplo de Jesus. “Pois também o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Marcos 10:45). Isso deve quebrantar de vez nosso coração. O Filho do homem, Jesus Cristo, a quem foi dado domínio, glória e reino, veio como servo. Veio para dar a Sua vida em resgate de muitos, em nosso resgate. Ele não morreu por Seus próprios pecados, pois n’Ele jamais se achou culpa alguma, mas pelos nossos pecados. Portanto, somos eternos devedores, e como alguém que tem uma dívida eterna pode requerer que seu credor lhe conceda alguma honra, reconhecimento ou destaque? Como podemos chegar diante de Cristo com a pergunta capciosa “qual de nos é o maior?”, cientes da nossa pequenez? Como podemos querer uma posição que não seja a Seus pés, prostrados, todos nós, lado a lado, em humilde agradecimento? Como poderíamos nós em sã consciência nos gloriarmos, se tudo o que temos e somos é pela Graça? E se Graça é favor imerecido, como podemos nos julgar merecedores de algo mais? Como podemos disputar assim entre nós quem é o maior ou o melhor, se todos somos pó?
Don Forther nos alerta: “o Evangelho da Graça não permite nenhum lugar ao mérito humano”. Se tentarmos alegar diante de Deus algum reconhecimento ou posição de honra para nós, mesmo que diante do mais indigno que seja dos homens, deveríamos antes ser perfeitos, pois Deus não aceita nada menos que a perfeição. Alguém aqui ousaria levantar-se e bater no peito: “eu sou perfeito”? Até mesmo nossa fé e as melhores de nossas boas obras estão tão cheias de pecado que, caso não fossem lavadas no sangue de Cristo, exigiriam a nossa condenação sumária.
Portanto, nenhum de nós tem a mínima condição de se julgar maior ou melhor que o outro, nem aqui na terra, e tampouco na eternidade (como tinha sido o caso de Tiago e João no contexto da nossa passagem central). Ninguém há de desfilar no céu ostentando uma coroa, assinada pela grife de um cantor gospel, maior que a dos outros – nosso Rei usou uma coroa de espinhos. Seja anátema o que insiste em sustentar tal ambição escatológica. Nenhum dos eleitos de Deus será colocado no quartinho dos fundos da morada celestial enquanto um “bambambam” ocupa um dos aposentos de hora. Ninguém irá morar na favelinha do céu enquanto alguns “bons da boca” estarão em condomínios fechados.
Lembremos por exemplo de Paulo, o apóstolo. Lembremos do ladrão arrependido no último momento na cruz. Aos olhos humanos, quem vocês julgam ser o maior? Quem mereceria os melhores lugares? Porém, tanto o ladrão quanto o apóstolo tiveram tudo o que desejavam e tudo o que Deus se propôs a dar – eles tinham a Cristo, eles tinham tudo de Cristo. Quem desejaria algo mais? Quem pode contentar-se com menos? Cristo é a nossa recompensa!
Aqui, não há grandes nem pequenos, primeiros ou últimos. Somos todos servos de Cristo, servos uns dos outros. No céu, não haverá podium para os melhores colocados, graus de recompensa, ou qualquer outra posição de honra para nosso ego. Pois Cristo é o Alpha e o Ômega, o princípio e o fim, o primeiro e o último, e a Ele, somente a Ele, seja o poder, a honra, o reconhecimento e a glória, agora e para sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.




