Qual de nós é o maior?

Por Pedro Araújo

Mensagem pregada no domingo, 21 de Abril de 2013,
na 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Sinop.

“Então Jesus chamou-os para junto de si e lhes disse: sabeis que os que são reconhecidos como governadores dos gentios, deles se assenhoreiam, e que sobre eles os seus grandes exercem autoridade. Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos. Pois também o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.”

(Marcos 10:42-45)

Introdução

Este texto traz a nós uma clara lição de Jesus sobre humildade e nos defronta e faz lembrar mais uma vez dos fascinantes paradoxos do Evangelho: “é melhor dar do que receber”, “é morrendo que se vive”, “aquele que perde, encontra”, “é necessário amar quem nos odeia”, “abençoar quem nos persegue”, “retribuir o mal com o bem”, “pedir perdão mesmo que sejamos nós quem foi ofendido”, “saber como se portar entre os fracos, mesmo sendo forte”, “o maior seja como o menor”, “o primeiro se coloque como o último”, “as autoridades ajam como servos”.

Aqui Jesus compara as atitudes de seus discípulos com o sistema do mundo. O mundo tem seus dominadores, tem quem manda e quem obedece, tem os seus famosos e os considerados anônimos, os grandes e os pequenos. Mas entre os discípulos, entre nós, não deve ser assim. Isso não significa que Jesus é contra qualquer forma de governo ou organização social, e muito menos que seja defensor da anarquia. Mas o que Ele está deixando claro é que não aceita a hipocrisia, a segregação, a arrogância e a demagogia.

Ao relatar de modo paralelo esta passagem, Lucas 22:25 diz: “Ao que Jesus lhes disse: os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que sobre eles exercem autoridade são chamados benfeitores”. A questão é que muitos destes reis é que se autointitulavam “benfeitores”, mas quase sempre sem nenhuma justificativa plausível, apenas com o objetivo de serem reverenciados pela posição que ocupavam e por seus supostos atos de justiça, uma tendência seguida até hoje, por exemplo, por ditadores e líderes totalitaristas que oprimem seu próprio povo, e ainda assim se julgam pais e salvadores da pátria.

Foi justamente esta mancha que Jesus enxergou na intenção de seus discípulos, que não tinham entendido que deveriam simplesmente servir como Jesus, sem ambicionar glória pessoal. Olhando o contexto desta passagem, notamos que até então os discípulos ainda estavam muito longe de compreender o que Jesus tinha vindo fazer na terra e, especialmente, a essência de Seus ensinamentos. Longe a tal ponto de disputarem entre si a usurpação da preeminência uns sobre os outros. Os evangelhos diferem um pouco quanto aos detalhes e quanto à própria situação que levou Jesus a exortá-los com as Palavras que lemos no nosso texto base, o que pode indicar também que este tipo de atitude infantil era algo recorrente entre eles (o que de fato veremos em outras passagens mais adiante). De qualquer modo, o problema era: uns queriam ser melhores que os outros.

Interessante que em Lucas 22:24 lemos que eles discutiam entre si sobre quem pareci ser o maior, e isso depois da última ceia, depois de Jesus, o Rei dos reis, ter lavados os pés de cada um deles, depois de tê-los inclusive servido à mesa. Mateus 20:21 e Marcos 10:37 relatam uma atitude um pouco mais ousada relacionada ao momento em questão. Tiago e João, acompanhados de sua mãe – e, provavelmente, de toda a família – tiveram a cara de pau de tentar garantir para si uma lugar à direita e à esquerda de Cristo em Seu trono na glória. Eles não entenderam o ensinamento de Jesus sobre a verdadeira grandeza, e aí a confusão se armou. Lemos em Mateus 20:24 e Marcos 10:41 que isso deixou os outros discípulos indignados. Só que não foi uma indignação pelo fato dos dois não terem entendido o ensinamento, mas porque eles também estavam interessados em garantir para si os mesmos assentos. O fato é quem ninguém de todos eles entendeu nada, estavam todos cheios de noções mundanas sobre poder e autoridade. Se voltarmos as páginas da Bíblia para um pouco antes do nosso texto base, nos depararemos em Marcos 9:33-37 com eles mais uma vez discutindo no caminho pra casa quem era o maior. Jesus percebe e os exorta: “quem quiser ser o primeiro, seja servo; seja como uma criança”. O mesmo erro e o mesmo ensinamento no capítulo 9. O mesmo erro e o mesmo ensinamento no capítulo 10. E ainda assim eles custavam a entender.

Numa analogia, Jesus não estava dizendo que o estabelecimento de lideranças entre nós é algo ruim em si, mas indicou como isso deve ser exercido. Nossa tendência é querer agir conforme os exemplos dos líderes deste mundo, mas a maneira com que Jesus cumpriu Seu papel messiânico, sem segundas intenções, é que deve ser o modelo para nós em qualquer posição ou cargo que formos exercer, tanto na sociedade de modo geral quanto, e especialmente, no Reino de Deus.

Devemos agir como crianças, não que crianças sejam inocentes e perfeitas, mas porque elas não fingem ser o que não são, e delas sabemos o que esperar. Na época, ser comparado e exortado a ser a criança era ser considerado sem importância, e o que Jesus quis dizer com isso era para que os discípulos assumissem uma posição de simplicidade, para que pudessem entender o que de fato significa ser grande, pois a verdadeira grandeza se manifesta em humildade e não procura se sobressair sobre ninguém.

Desta forma, somos levados a refletir sobre três pontos, e considerar em que estamos nos encaixando.

A ambição de ser o maior

Vimemos numa sociedade que prega o individualismo e fomenta a desigualdade entre as pessoas. Fala-se que ultimamente as pessoas pensam cada vez mais somente em si mesmas, mas podemos dizer que sempre foi assim – a diferença é que antes não havia TV e Facebook pra ficarmos tão bem informados, ou então porque nunca prestamos atenção nos livros de história.

Ao longo dos séculos, o homem subjugou e escravizou seus semelhantes, pessoas foram submetidos a um estado sub-humano de vida e nações chegaram a ser divididas por causa de preconceitos raciais. Milhões foram mortos em cruzadas de limpeza étnica em nome da supremacia de raças que se consideravam puras. Civilizações de nativos foram saqueadas e muitas dizimadas pra saciar a ganância de povos imperialistas.

“Num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” como o nosso, pessoas morrem de fome, morrem vítimas da criminalidade urbana, morrem em conflitos agrários, nas filas dos hospitais, morrem mental e culturalmente sem acesso à educação de respeito, morrem de frio nas ruas ou nos deslizamentos de terra provocados pelas “águas de Março” por não terem direito à moradia digna, enquanto o bolso dos corruptos se enche do dinheiro público que deveria servir para o bem estar de todos.

E os responsáveis por tanta injustiça não estão só em Brasília. Quantos de nós, patrões, não exploramos nossos empregados, quantos de nós não queremos levar vantagem na base do “jeitinho brasileiro”, quantos de nós não traímos e damos prejuízo ao nosso país quando resolvemos nos igualar aos corruptos que tanto criticamos nos dando o direito de sonegar impostos ou mentir pra declaração de imposto de renda – podemos até enganar o leão da Receita Federal, mas ao Leão da Tribo de Judá, a esse ninguém engana.

Somos mal educados, destratamos as pessoas quando nos julgamos estar com a razão, xingamos no trânsito, socamos a mesa, furamos a fila. Tudo isso por acharmos que somos melhores ou maiores que os outros.

O mundo incentiva a competitividade, e antes fosse uma simples questão relacionada a empreendedorismo, se no final das contas isso não significasse a busca por sucesso a qualquer custo.

Mas infelizmente não é só no mundo. Tal mal também assola a cristandade e ronda aquela que se diz igreja. Muitos dizem que o mudo tem entrado na igreja, e de fato tem, mas nem tanto por causa de estilos musicais de gosto duvidoso, jeito de se vestir ou até mesmo questões morais. Como diz Ariovaldo Ramos, “você sabe que o mundo entrou na igreja quando as pessoas deixam de se ver como iguais”. O desejo de poder levou muitos a envergonharem o Evangelho, promovendo desde violência psicológica e intelectual ao derramamento de sangue inocente em nome de “guerras santas”. Parece que ao longo dos séculos o cristianismo deixou de ser cristão.

E se na história e mesmo na sociedade contemporânea nosso testemunho é manchado, no nosso relacionamento interno a coisa não fica por menos. Queremos os títulos, os cargos (pra sermos servidos deles), queremos a alcunha de “grandes homens de Deus”, de profetas, apóstolos, patriarcas, papas, gurus, veneráveis, grão-mestres. Esconjuramos o satanás com cabeça de bode dos grupos conspiratórios, mas, a exemplo deles, queremos estabelecer graus e castas espirituais entre nós. Pervertemos a caminhada com Cristo em “carreira ministerial”, digo, “carreira gospel”.

Supostos pastores por aí se autointitulam os “ungidões”, e ai de quem os questionar, de quem denunciar sua apostasia. Ai de quem tocar no “ungidão”. Como diz o Rev. Augustus Nicudemus Lopes, nestes casos, “‘não toque no ungido do Senhor’ é apelação de quem não tem nem argumento e nem exemplo para dar como resposta”.

Pisamos o sangue da Aliança da Graça, para abraçarmos um humanismo de quinta categoria e um hedonismo cínico travestidos de “evangelho”. Desprezamos a Palavra Fiel e canonizamos as profetadas dos falsos guias para dar base à usurpação da glória que pensamos pertencer a nós. A idade das trevas parece não ter acabado enquanto vemos os mercenários da teologia da prosperidade – como diz Caio Fábio – fazerem os vendedores de indulgências que tiraram Lutero do sério se sentirem no jardim de infância da estelionatagem.

Já não se encontra doxologia nas nossas canções, pois a maioria delas falam mais de nós do que de Deus. Uma música que se diz gospel, mas que está impregnada de uma filosofia satanicamente antropocêntrica, umbigocêntrica. Hedonismo disfarçado de “louvor profético”. O homem para de ouvir a voz de Deus e passa a cantar e ordenar aquilo que deseja. Milagres em prol do nosso ego e bens materiais passam a ser sinal de que aí sim o cara é abençoado e verdadeiramente fiel. Só vitória, só bajulação de si mesmo. É a conversão póstuma de Raul Seixas: “faça o que tu queres será o todo da lei” virou “eis que te digo que o que tu queres será aquilo que Deus estará obrigado a honrar e ter que querer – pro crentino mimado não ficar emburrado – e tudo certo”.

São tantos que se dizem servos de Deus, que pensam ter pago algum preço que os faz achar serem donos das consciências e das almas dos fiéis. E num profano corporativismo “evangélico”, defendemos o lobo e sacrificamos as ovelhas – tudo pra ficar bem na fita com os poderosos do show bizz gospel. A verdade é queremos nos engrandecer não somente sobre os nossos irmãos, mas contra o próprio Deus, pois caímos na velha proposta da serpente: “comam e sejam iguais a Deus”. É a mesma pretensão luciferiana relatada em Ezequiel 28, de querer se exaltar diante de Deus, ou acima d’Ele, se possível fosse.

E não adianta pensarmos que isso só serve pra quem está por aí corrompendo palcos e púlpitos. II Timóteo 4:3-4: “Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas”. Há muito que estes tempos estão entre nós, e muitas vezes eu e você somos cúmplices deste sistema sectário e opressor quando nos encontramos entre os que só querem ouvir o que lhes agrada, para nos sentirmos grandes.

O câncer da falsa humildade

Se a ambição descarada de querer ser o maior nos escandaliza, o segundo ponto em questão talvez seja mais desleal ainda. A falsa humildade e a falsa promoção da igualdade entre as pessoas são sutis.

Como se fala ultimamente em tolerância, respeito às diversidades, proteção das minorias. Proclama-se e marcha-se pela paz entre as pessoas e povos. Mas a pergunta é: como alcançaremos este bem comum de que tanto se fala, se ao mesmo tempo os mesmos que se dizem pacificadores pregam coisas como “pense em você mesmo”, “ligue o botão do ‘dane-se’” (com o perdão da palavra), “seja feliz acima de tudo e de todos”?

Como poderemos alcançar o fim do bem comum, coletivo, se os meios adotados na prática são individualistas?

Aqueles que dizem querer uma sociedade mais igualitária, querem fazer isso impondo a sua agenda. E quando conseguem, viram a mesa. E já está virada. Como diz a canção do Resgate: “diziam que eram coitados, amordaçados pela censura, agora desfilam nas bancas, imprimem a própria ditadura”. Os antes oprimidos e reprimidos agora defendem seu próprio conceito de liberdade com argumentos de opressão e repressão. Não há dúvidas de que a maioria dos discursos que falam em paz e justiça por aí não passam de demagogia. Cada um quer puxar a sardinha pro seu prato. Enquanto isso, os realmente injustiçados estão desassistidos.

E nós, cristãos? Diante disso, quantas vezes somos omissos e medíocres. Nos preocupamos mais com temas periféricos e passamos por alto o que realmente importa. Fazemos do suposto moralismo nossa agenda de Reino, enquanto somos displicentes na assistência às viúvas e órfãos em suas aflições à nossa volta. Lavamos o exterior do copo e do prato, mas por dentro os deixamos cheios de rapina e intemperança. De que adianta gritar pro mundo aquilo que somos contra, se não fazemos sabido do que somos a favor, se é que realmente somos a favor do Evangelho puro e simples.

Não conseguimos convencer ninguém, e ainda achamos que podemos enganar a nós mesmos. Não promovemos reconciliação no mundo, e ainda promovemos cada vez mais divisão entre nós. Fechamos os olhos, fingimos que está tudo bem. Insistimos em frases de efeito, tais como “o que nos une é maior que o que nos separa” – bem, isso, se não é uma mentira, é no mínimo um contrassenso, caso contrário não haveria tanta divisão entre nós. Ficamos em cima do muro, vivemos na mornidão em nome de um amor fingido, calamos e consentimos com erros que geram morte, de esperanças e de pessoas. Somos separados pela Palavra, pois uns resolveram desobedecê-la para satisfazer suas próprias concupiscências.

Pelo que Paulo nos perguntaria em I Coríntios 13: “que amor é ente que folga com a injustiça, que se ensoberbece”? Que amor insensível à dor do próximo é este, a despeito das ministrações musicais carregadas de emocionalismo? Que amor é este que alega ser o amor que edifica, que se apresenta cheio de piedade contra aquilo que chamam de letra que mata, quanto apoiam, como diz John Piper, todo tipo de onda, mover e más teologias que ferem o povo?

Que amor é este, que se lança a avivamentos que cobram R$ 100,00, R$ 200,00, R$ 300,00 pelo ingresso de um show gospel. Que amor é este que faz da devoção uma barganha, do sobrenatural uma superstição? Que amor é este que clama misericórdia para si e para seu grupo de interesse, mas aos outros brada juízo implacável? Que amor é este cuja tolerância é moeda de troca para seus próprios interesses?

Difícil de se convencer que isso é amor. Que haja humildade nisso, se nos baseados em meias-verdades. E basta que uma gota da verdade nos confronte para que a nossa unidade entre em crise. Como diz Rev. Hernandes Dias Lopes, “nessa sociedade hedonista, que defende a tolerância, a única coisa que não toleram é a verdade”. Como viveremos como iguais assim?

A verdadeira igualdade

Por fim, mais importante que entendermos aquilo que não devemos ser, é entendermos e vivermos aquilo devemos ser. O ensinamento de Jesus é muito simples e claro. Em nenhum momento estamos afirmando que qualquer tipo de formalização, institucionalização ou organização hierárquica entre nós são mas em si mesmas. Essas coisas são inclusive necessárias, desde que compreendamos qual o verdadeiro papel delas. Como nação, precisamos sim de governantes e representantes. Como sociedade, precisamos de lideranças. Como alunos, precisamos de professores. Como povo de Deus, precisamos de presbíteros e pastores.

Como igreja, precisamos sim de organização, de que pessoas ocupem cargos e desempenhem funções específicas. Não devemos esperar que todos recebam os mesmos dons, talentos, funções e responsabilidades. “E o Senhor deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo; para que não mais sejamos meninos, inconstantes, levados ao redor por todo vento de doutrina, pela fraudulência dos homens, pela astúcia tendente à maquinação do erro; antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo n’Aquele que é a cabeça, Cristo, do qual o corpo inteiro bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, efetua o seu crescimento para edificação de si mesmo em amor” (Efésios 4:11-16).

Através de funções específicas, Deus providenciou os meios para moldar e harmonizar a diversidade que Ele mesmo criou. Por isso, Ele mesmo, por exemplo, estabeleceu entre nós líderes, não para que estes se servissem a si mesmos de suas posições, mas para servirem o Corpo, ajudando cada crente a encontrar sua própria maneira de beneficiar toda a igreja. Não recebemos nós diferentes dons e funções para os usarmos individualmente a fim de alimentarmos nosso ego. Ninguém cresce sozinho e independentemente do outro.

Essa diversidade criada por Deus não é para que nos sintamos diferentes, melhores ou maiores por aquilo que somos ou a posição que temos, mas para que todos se sintam interdependentes, para que um supra as carências do outro, para que nos completemos como família e nas nossas diferenças cresçamos em amor. Isso está na essência do que Jesus disse aos discípulos no nosso texto base. Todo chamado, por mais particular ou específico que seja, é um chamado pra servir a Deus e ao próximo, e não para sermos servidos.

Efésios 5:21 diz que devemos nos submeter uns aos outros no temor de Cristo. Isso é ser cheio do Espírito. Isso serve pra todos, não importa sua posição social, seus conhecimentos, seu tempo de igreja. Isso reforça a ênfase do Novo Testamento em que devemos moldar nossos estilos de relacionamento na humildade e bondade de Cristo, pois o Espírito de Deus não tolera os orgulhosos, os que se acham auto-suficientes, os que querem engrandecer a si mesmos.

E, acima de tudo, o incontestável exemplo de Jesus. “Pois também o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Marcos 10:45). Isso deve quebrantar de vez nosso coração. O Filho do homem, Jesus Cristo, a quem foi dado domínio, glória e reino, veio como servo. Veio para dar a Sua vida em resgate de muitos, em nosso resgate. Ele não morreu por Seus próprios pecados, pois n’Ele jamais se achou culpa alguma, mas pelos nossos pecados. Portanto, somos eternos devedores, e como alguém que tem uma dívida eterna pode requerer que seu credor lhe conceda alguma honra, reconhecimento ou destaque? Como podemos chegar diante de Cristo com a pergunta capciosa “qual de nos é o maior?”, cientes da nossa pequenez? Como podemos querer uma posição que não seja a Seus pés, prostrados, todos nós, lado a lado, em humilde agradecimento? Como poderíamos nós em sã consciência nos gloriarmos, se tudo o que temos e somos é pela Graça? E se Graça é favor imerecido, como podemos nos julgar merecedores de algo mais? Como podemos disputar assim entre nós quem é o maior ou o melhor, se todos somos pó?

Don Forther nos alerta: “o Evangelho da Graça não permite nenhum lugar ao mérito humano”. Se tentarmos alegar diante de Deus algum reconhecimento ou posição de honra para nós, mesmo que diante do mais indigno que seja dos homens, deveríamos antes ser perfeitos, pois Deus não aceita nada menos que a perfeição. Alguém aqui ousaria levantar-se e bater no peito: “eu sou perfeito”? Até mesmo nossa fé e as melhores de nossas boas obras estão tão cheias de pecado que, caso não fossem lavadas no sangue de Cristo, exigiriam a nossa condenação sumária.

Portanto, nenhum de nós tem a mínima condição de se julgar maior ou melhor que o outro, nem aqui na terra, e tampouco na eternidade (como tinha sido o caso de Tiago e João no contexto da nossa passagem central). Ninguém há de desfilar no céu ostentando uma coroa, assinada pela grife de um cantor gospel, maior que a dos outros – nosso Rei usou uma coroa de espinhos. Seja anátema o que insiste em sustentar tal ambição escatológica. Nenhum dos eleitos de Deus será colocado no quartinho dos fundos da morada celestial enquanto um “bambambam” ocupa um dos aposentos de hora. Ninguém irá morar na favelinha do céu enquanto alguns “bons da boca” estarão em condomínios fechados.

Lembremos por exemplo de Paulo, o apóstolo. Lembremos do ladrão arrependido no último momento na cruz. Aos olhos humanos, quem vocês julgam ser o maior? Quem mereceria os melhores lugares? Porém, tanto o ladrão quanto o apóstolo tiveram tudo o que desejavam e tudo o que Deus se propôs a dar – eles tinham a Cristo, eles tinham tudo de Cristo. Quem desejaria algo mais? Quem pode contentar-se com menos? Cristo é a nossa recompensa!

Aqui, não há grandes nem pequenos, primeiros ou últimos. Somos todos servos de Cristo, servos uns dos outros. No céu, não haverá podium para os melhores colocados, graus de recompensa, ou qualquer outra posição de honra para nosso ego. Pois Cristo é o Alpha e o Ômega, o princípio e o fim, o primeiro e o último, e a Ele, somente a Ele, seja o poder, a honra, o reconhecimento e a glória, agora e para sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.

Amor e livre-arbítrio

Pedro Araújo 
19/04/2013

Charles Spurgeon disse certa vez que “o livre arbítrio levou muitas almas ao inferno, mas nunca nenhuma ao céu”. Uma aplicação prática disso é que se o “livre-arbítrio” existe, então ele só nos habilita a fazermos escolhas erradas, nos direcionando sempre ao mal, nunca ao bem, sempre à morte, nunca à vida, sempre à condenação, nunca à liberdade.

O maior mandamento deixado por Jesus Cristo é amar a Deus sobre todas as coisas e o segundo – e semelhante a este – é amar ao próximo como a si mesmo. Isso não é uma sugestão, é uma ordem! Não é questão de “livre escolha”, é questão de cumprir um decreto!

Assim, se esse “livre-arbítrio” seria a capacidade que “temos” de fazer escolhas “independentemente” de qualquer coisa, sem que nem mesmo Deus interfira, no fim das contas nossa presunção de livre juízo só nos levará a escolher odiar.

Ora, se amar não é uma sugestão, não é uma alternativa, mas um mandamento, então não há mérito algum em nossa suposta “escolha” por amar, se é que escolhemos isso de fato. Não podemos amar simplesmente por mera interferência de Deus, pois amar é ordem inquestionável d’Ele! E não há mérito pessoal algum em “decidir” cumprir a ordem do Soberano!

Neste caso, o “mérito” do “livre-arbítrio” seria então no máximo em relação à alternativa contrária: Deus soberanamente decretou que devemos amar, mas meu “livre-arbítrio” diz que Deus não pode interferir a ponto de suplantar minha vontade humana, então eu livremente escolho não amar – e que bem do qual possamos nos orgulhar haveria nessa escolha?

“Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; Cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; E não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos.” (Romanos 3:10-18)

 

Faça uma loucura por Jesus! (?)

Somos chamados a pregar, levar a Palavra, anunciar o Evangelho! Mas será que vale tudo pra “evangelizar”? Creio que não, pois tão importante quanto pregarmos é o que pregamos, tão importante quanto evangelizar é que tipo de evangelho estamos levando, mesmo porque se estivermos anunciando um evangelho adulterado – ou falsificado – estaremos evangelizando é coisa nenhuma.

A verdade é que a desculpa de “evangelizar” virou argumento pra justificar a apostasia. Muitos de nós estão “evangelizando” com um evangelho vazio de Evangelho, que não apresenta Jesus, mas sim uma religião gospel de quinta categoria, profana, sem noção, desequilibrada e louca! É por isso que tantos por aí estão fazendo “loucuras por Jesus”, e ficando cada vez mais longe d’Ele!

Meses atrás, a imagem de um certo “pastor” com o nariz na Bíblia simulando cheirar uma carreira de cocaína foi – até agora – o ápice das imbecilidades que se fazem em nome de Jesus, e que infelizmente tanto influenciam o meio gospel, principalmente os jovens. Mas será realmente que esse tipo de loucura é válida? Não! Simplesmente porque, além de ser uma infeliz apologia às drogas, é uma zombaria da Bíblia! Isso não é “loucura por Jesus”, é falta de bom senso e desequilíbrio mental! Além do mais, subestima a inteligência dos próprios jovens, como se a única coisa que os atraísse, como se a única coisa que tivessem na cabeça, como se a referência de prazer de viver que tivessem fosse relacionada ao consumo de drogas.

Ainda sobre o episódio, quando todos esperavam uma retratação, o cara simplesmente reiterou ainda mais seu feito, com o aval de seus líderes. Os jovens liderados por ele repetiram a cena em conjunto, como manifestação de apoio. Mas o absurdo foi quando surgiu uma imagem de crianças que fazem parte de um projeto social cheirando a Bíblia igual o maluco, pra chamar a atenção dele em busca de ajuda pro projeto. Cara, é muita irresponsabilidade! Olha o referencial que as crianças cristãs estão tendo!

Numa das respostas que deu sobre o fato, o certo pastor disse que aquilo não era desrespeito, mas era uma prova de amor à Bíblia, e ainda chamou todos os que desaprovavam sua atitude de religiosos, e que ele não estava preocupado com os religiosos, mas com os drogados que veriam a imagem e seriam “tocados”. O discurso quase convence, mas somente revela a falta de humildade e hombridade que alguns têm pra assumir e voltar atrás nas insanidades que cometem.

Gente, isso é perigoso! Não bastasse hoje muitas pessoas na igreja – como diz Paul Washer – viverem de frágeis musiquinhas e não da Palavra de Deus, agora estão canonizando a insensatez em detrimento da verdadeira mensagem do Evangelho, que é palavra de sabedoria. Que estratégia de evangelismo que nada! Isso é modismo profano! Usar uma imagem que faz referência às drogas pra “alcançar” drogados! Loucura? Não! Imbecilidade! Eu, particularmente, tive o desprazer de ouvir pessoalmente um “pastor” que curte o maluco expressar apoio a este tipo de atitude, sendo que ele mesmo disse certa vez numa pregação: “Jesus é a minha cocaína, é a droga que eu injeto na veia” – sem comentários!

Enfim, mas o problema principal é que os que se enveredam por estes caminhos dizem que estão se baseando na Bíblia, que a Bíblia manda sermos loucos por Cristo – e têm até versículos pra se embasar! Que eu saiba Bíblia foi feita pra ser lida, pra meditar nela, e não pra ser cheirada como se estivesse dando um teco numa carreira de cocaína – embora eu também tenha visto um outro pastor dizer que “essa droga serve pra meditar e cheirar” – sem comentários outra vez!

Mas, já que a Bíblia está no centro da polêmica, deixando as colocações de certa forma subjetivas e indignadas de lado, o que a Bíblia diz sobre isso? Será que ela nos incentiva a fazer “loucuras” por Jesus?

Bem, em Provérbios 13:16 a Bíblia diz que o insensato fica vagando na sua loucura, e é justamente o que muitos “malucos por Jesus” fazem: ficam viajando sem noção! Por isso, em Provérbios 14:7 a Palavra nos orienta a fugir desse tipo de gente, pois não encontraremos nenhuma inteligência com eles. Eles usam o nome de Jesus, usam a Bíblia, mas não ouvem de fato Suas Palavras, vão na onda, mas nada permanece, a casa deles logo cai (Mateus 7:26), pois não está firmada na Rocha, mas em modismos. É realmente irônico como falam da Bíblia e a usam em suas loucuras, mas até mesmo quando passam da conta não admitem serem admoestados por ela. A Bíblia diz em Provérbios 1:7 que “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, mas os loucos desprezam a sabedoria e o ensino”, e é justamente assim que agem os malucos quando são confrontados: desprezam a Palavra e não aceitam serem instruídos, não são ensináveis – como o pastor cheirador, seus líderes, seus discípulos e seus fãs por todo o Brasil.

Vai fazer uma “loucura” por Jesus? Então lembre-se d’Ele! Ora, se Jesus fosse louco à moda dos malucos gospel de hoje em dia ninguém teria dado crédito a Ele, pois ninguém levaria um lunático a sério. Mas a revolução que Ele causou foi algo sério, concreto! O que Ele dizia e fazia era sim loucura pois, realmente, falar de amor quando todos se odeiam é loucura, ser humilde quando todos querem ser os maiorais é loucura, dar a outra face quando todos querem vingança é loucura! Mas Jesus nunca foi idiota e sem noção!

Outro exemplo é o Apóstolo Paulo. Em Atos 18 ele chegou a ser chamado de louco perante o rei pelo governador, mas não porque agia como alguém que tem transtornos mentais, mas justamente por causa da mensagem contundente do Evangelho. Ele sempre esteve no pleno exercício de suas faculdades mentais, tanto que o rei, mesmo que ironicamente, disse que quase foi convencido a se tornar cristão pelos argumentos lúcidos de Paulo.

E o mesmo Paulo fala muito sobre loucura, especialmente em I Coríntios. Lá encontramos a expressão dele: “loucos por causa de Cristo”. Pois é, muitos se baseiam nessas palavras pra fazer o que fazem, e ainda bater no peito e dizer que são os bons! Mas não tem nada a ver com as insanidades que se cometem hoje. No texto, Paulo estava advertindo os coríntios pois eles estavam passando da conta, estavam se tornando arrogantes, por isso Paulo fala num tom de sarcasmo (I Cor. 4:10), uma vez que as pessoas naquela igreja estavam se achando superiores por viverem numa cultura sofisticada, enquanto Paulo e os demais apóstolos eram simples. Ele diz ironicamente: “nos somos loucos, vocês sábios; nós fracos, vocês fortes”! Não tem nada a ver com “fazer doideira sem noção por Jesus”. Era uma severa repreensão, pois aqueles que se achavam tanto, no fim, não chegavam nem perto da glória que pensavam ter. Esta mesma ironia Paulo usa I Coríntios 1:25 ao dizer que a loucura de Deus é mais sábia que os homens e Sua fraqueza mais forte que tudo aquilo que eles pensam ter, pois que Deus torna isso em nada (I Cor. 1:19).

Num outro texto muito usado pelos malucos, algumas traduções da Bíblia trazem em I Coríntios 9:22 Paulo dizendo que se fez “louco para ganhar os loucos”, mas isso não tem nada a ver com puxar uma carreira gospel ou chamar Jesus de “a droga que o crente injeta na veia”. As traduções mais precisas trazem Paulo dizendo que se fez “fraco para ganhar os fracos”, onde ele quer dizer que mesmo sendo forte não usou dessa força de modo a prejudicar os mais fracos, ou seja, se igualou ao “nível” deles procedendo de maneira mais simples, não enfraquecendo seu caráter, mas justamente sabendo agir com “calma” pra não colocar peso sobre os que ainda tinham um caráter a ser moldado.

A loucura de que Paulo fala é algo sério! Em I Cor. 1:8 ele diz que a Palavra da Cruz é loucura pros que se perdem, mas é poder de Deus para aqueles que são salvos. É loucura pros que se perdem pois eles estão obstinados na sua incredulidade e em seus pecados, pois adoram mais as suas ideias, suas opiniões, simplesmente por teimosia e birra, por achar que não precisam mudar, que não precisam aprender e nem se arrepender de nada, por acharem que estão na razão. E olha que entre estes aí muitas vezes – ou quase sempre – estão os falsos religiosos, os que se acham sábios, os super crentes, os “ungidões”, os “loucos por Jesus”. Paulo repete em I Coríntios 1:23-24 que pro mundo loucura é a pregação do Cristo que foi crucificado em nosso lugar, pra pagar nossa dívida, pra nos dar perdão – loucura pro mundo, escândalo pros religiosos, inclusive os de hoje, que pregam tantas coisas, mas não aceitam verdadeiramente a Cruz, o que ela significa e suas implicações. Mas pros remidos essa “loucura” é poder pra salvação.

Portanto, essas loucuras que se fazem “por Jesus” hoje são totalmente desconexas da Bíblia, pois de fato não é na palavra de Deus que estas insanidades se baseiam. A loucura do Evangelho é loucura pois é algo que ultrapassa a capacidade humana, é algo superior – é supra mental, e não débil mental. Em nenhum lugar a Palavra de Deus aprova ou incentiva certas “estratégias loucas”, ainda que sejam com a desculpa de “evangelizar”. Assim, já que é pra pregar, pra fazer missão, pra alcançar, então sigamos a instrução de Jesus em Mateus 10:16, e saibamos agir com simplicidade e prudência, e não com excessos e insensatez.

O DIABO PIRA!

Por Pedro Araújo

É muito comum vermos nas redes sociais pessoas compartilhando imagens e frases com a expressão “quando faço tal coisa o diabo pira”, ou coisas semelhantes como “faça raiva no diabo”, e etc…

Creio que deveríamos tomar mais cuidado com isso, pois talvez, numa tentativa de demonstrarmos uma suposta espiritualidade, poderemos estar perdendo nosso foco e passando a impressão de que o objetivo do que fazemos não está em Deus, mas no diabo. Isso é sério.

É verdade que Jesus nos fez vencedores contra o inimigo de nossos almas. E se ele ainda luta contra nós, Romanos 16.20 diz que “o Deus de paz em breve esmagará a Satanás debaixo dos vossos pés”. Mas não podemos perverter o sentido das coisas. Faça e seja o que você faz e é pra glorificar de Deus. É obvio que o diabo não se agrada de que façamos a vontade de Deus, mas a opinião dele é irrelevante pra nós. Nosso foco está no Senhor do universo, a quem amamos e servimos.

Olha só o que o Breve Catecismo de Westminster diz:

PERGUNTA 1 – Qual é o fim principal do homem?

RESPOSTA – O fim principal do homem é glorificar a Deus, e alegrar-se n’Ele para sempre.

Referências: Rm. 11.36; 1 Co. 10.31; Sl. 73.25-26; Is. 43.7; Rm. 14.7-8; Ef. 1.5-6; Is. 60.21 e Is. 61.3.

Pense nisso!
Deus te abençoe!

[ Mensagem de Páscoa ] Estou tentando me arrepender e crer o suficiente pra ser salvo, mas não está funcionando! O que há de errado!?

Muitos de nós sentimos como se estivéssemos fazendo de tudo, mas não estamos conseguindo entender o que é o “arrependimento bíblico”. Não conseguimos compreender o que é o arrependimento verdadeiro. Ainda não entendemos que não se trata de uma obra de ‘pré-conversão’, com a qual tentamos reformar nossa vida para que então cheguemos a um lugar onde Deus agora nos aceite! Não é isso!

Assim, muitas pessoas se tornam tão presas em seu arrependimento que ficam se perguntando: “Será que estou me arrependendo o suficiente?”, “Será que estou crendo o suficiente?” – e deste modo elas estão constantemente olhando para dentro de si mesmas, ao invés de olhar para Cristo!

Mas se isso é verdade, você deve então continuar se perguntando: “Como posso algum dia ser salvo? Eu estou nesta situação: estou tentando crer o suficiente, estou tentando me arrepender o suficiente, mas eu não sinto nenhuma mudança; o que eu faço?”.

Bem, se você chegou a esta situação e diz “estou tentando crer o suficiente, me arrepender o suficiente”, então você não entendeu, ou se esqueceu, que o Senhor nunca, nunca, nunca, jamais disse que era pra eu e você confiarmos nas nossas próprias e despedaçadas forças ou em qualquer tipo de esforço próprio pra tentar crer e se arrepender. Nunca!

A grande ideia do arrependimento é desistir de nossos esforços próprios. Desistir até das nossas próprias tentativas de crer, das nossas próprias tentativas de se arrepender. A questão é vir como um desamparado, vir como que totalmente sem forças, sem habilidades, e simplesmente cair aos pés de Cristo para receber socorro. Não é olhar para as forças dentro de nós; é olhar para a inclinação que só vem de Jesus Cristo – do contrário, seria confiar em si mesmo.

Quando tentamos basear nossa fé em esforços para crer o suficiente, para se arrepender o suficiente, nosso problema se chama “orgulho”, nosso problema se chama prisão em si mesmo, se chama confiança própria, justiça própria. Estamos tentando nos fazer apresentáveis a Deus. Estamos tentando fazer alguma coisa, consertar alguma coisa. Estamos tentando fazer alguma coisa acontecer no nosso coração para que Deus enfim diga: “OK! Agora Eu te aceito!” – e é exatamente disso que precisamos nos arrepender; é exatamente disso que precisamos nos converter.

Não temos nada para oferecer a Deus! Em relação ao nosso problema – que nos leva ao nosso questionamento sobre o que fazer pra crer, pra se arrepender e pra ser salvo – não podemos purificar essa coisa dentro de nós, não podemos trabalhar essa coisa o suficiente para que Deus diga: “OK! Vejo que você conseguiu! Vejo que você chegou ao lugar!” – é, você conseguiu, você chegou ao lugar onde Pedro estava quando começou a afundar…

E o que Pedro disse naquela hora? Ele disse “Opa! É melhor eu crer o suficiente para me manter no topo sobre estas ondas”? Você sabe o que Ele fez? Ele disse: “Senhor, me ajuda!” – é disso que eu estou falando! É quando o pecador chega ao lugar onde percebe que está caindo. É quando, por exemplo, depois de ter feito um grande esforço pra atravessar o mar a nado você simplesmente chega à exaustão e percebe que ainda está no meio dele – e enquanto você pensar que tem alguma habilidade pra voltar à margem você não clamará por ajuda! Sabe por que? Pois você se envergonharia, pois as outras pessoas pensariam que você seria fraco. “Você não tem força o suficiente? Você não é crente de verdade? O que você é?”…

Enquanto ainda temos algum orgulho sobre nós, enquanto ainda temos qualquer confiança nas nossas habilidades evangélicas, na nossa “unção”, “consagração”, não clamamos! Mas você sabe quem clama Aquele que – “de repente” – se torna ciente de que não tem mais forças, de que não consegue mais permanecer em cima, que vai afundar. É aí que clamamos por ajuda: quando “cai a ficha” de que não vamos – pela nossa própria “fé”, pela nossa “atitude profética” – conseguir!

É quando chegamos ao fim! Mas quantos cristãos têm tido a humildade de dizer “Deus me salvou quando eu cheguei ao meu fim”? É claro que foi nesse momento que Ele te salvou, pois quando você chega ao seu fim você não vai continuar tentando mais, porque te falta combustível! O seu suposto, estéril e decaído “livre-arbítrio” se torna ainda mais ineficaz! Você chegou ao lugar onde está afundando, onde é incapaz de tomar decisões que te ajudem pois neste momento é incapaz de honrar com elas. “Senhor, me ajude, pois se o Senhor não me ajudar eu já era! Estou me afogando! Estou morto!” – é aí quando Ele vem e te salva.

Talvez você não aceite isso pois ainda não está no fundo do poço. Você ainda está apoiado na pedra da sua auto-confiança evangélica! Você ainda confia de mais em si mesmo! É por isso que você ainda não conseguiu crer, não conseguiu se arrepender. É por isso que você ainda “não foi salvo”.

(*) Adaptado de Tim Conway por Pedro Araújo.

O Fruto do Espírito

Por Pedro Araújo

Preleção ministrada no culto de jovens especial do Ministério Jovem IPIB Sinop,
realizado no dia 23/03/2013 no salão social da 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Sinop.

“O fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio; e contra estas coisas não há lei.” (Gálatas 5:22-23)

No contexto desta passagem, logo antes, no início do capítulo 5, o Apóstolo Paulo está alertando que muitas pessoas, mesmo tendo conhecido o Evangelho da Graça de Cristo, agora estavam dando ouvidos a falsos ensinamentos e andando para trás, achando que poderiam se justificar pelo entendiam da Lei do Antigo Testamento, pensando que poderiam cumprir esta Lei por suas próprias forças. Não que não devamos observar a Lei de Deus como um todo, mas este era justamente o problema, pois as pessoas estavam procurando se salvar pela Lei sem o devido entendimento do que ela representa – na verdade, o que estavam fazendo era simplesmente trocar Jesus, Seus ensinamentos e tudo o que Ele fez, tudo que Ele pagou por nós com sua própria vida, por uma mera religiosidade voltada para o orgulho próprio.

Paulo chega a dizer no versículo 7: “Vocês estavam indo tão bem! Porque voltar atrás? Quem impediu vocês de continuarem vivendo o Evangelho puro e simples?”. E nós hoje também podemos cair nessa, quando dos deixamos enganar pela conversa de pessoas, pregadores, tele-pastores, artistas gospel… que falam aquilo que não vem de Deus.

Mas esta passagem também mostra um outro lado. Na verdade são duas coisas que parecem sempre andar juntas pra tentar nos tirar do foco e impedir a manifestação do fruto do Espírito em nós. Estas duas coisas aparentemente estão em contraste uma com a outra, mas no fim causam o mesmo mal, que é nos privar de vivermos a liberdade em Cristo. É que se por um lado temos os religiosos, que tentam ser os super santos, colocando sobre as pessoas fardos que nem eles conseguem carregar, do outro temos os que igualmente não entenderam o que é esta liberdade, e que pensam que esta liberdade é para satisfazer as suas vontades pecaminosas. Não entenderam que esta liberdade significa estar livre do pecado, e não livre para pecar.

E enquanto estes dois grupos discutem entre si, esquecem do essencial. Quer os que pensam ser santos de mais, quer aqueles que “enfiam o pé na jaca” sem vergonha alguma, a verdade é que nenhum deles entendeu o Evangelho do amor. Parecem que só pensam em disputar, guerrear, destruir e devorar uns aos outros, como Paulo diz no versículo 15.

Mas o versículo 16 diz pra nós não nos deixarmos envolver por estas coisas e andarmos em Espírito, e não fazermos a vontade da carne. E o que é vontade da “carne”? Não é só aquilo que todos nós reconhecemos como “pecado” – e que geralmente só conseguimos associar com impureza sexual, bebedices, vícios. Mas Paulo deixa claro que “pecado” é tanto fazer estas coisas, e “não estar nem aí”, quanto pensar que podemos ser os santões por nós mesmos. Pecado é tanto viver no “mundão” quanto viver uma religiosidade vazia.

É bem provável que muitos de nós estejamos enfrentando um destes conflitos agora – quem sabe até os dois – e não necessariamente na prática, mas talvez dentro da nossa cabeça, como algo que nos impede de caminhar tranquilamente. O versículo 17 diz que é até natural, de certa forma, que esse conflito exista em nós. De um lado a vontade de Deus, de outro a nossa vontade de fazer coisas que é melhor nem falar. Mas a boa notícia, no versículo 18, é que o Espírito Santo nos tira dessa. Precisamos nos lembrar que não estamos mais debaixo da lei que condena, nem da lei do pecado, nem da lei da religiosidade. Não estamos mais sujeitos às obras da carne descritas nos versículos 20 e 21. Elas não podem mais nos dominar. Elas podem até dominar quem sente prazer no “pecado”, e inclusive pegar de surpresa e derrubar os “santarrões”, mas elas não podem dominar aqueles que têm o fruto do Espírito manifestado em suas vidas.

Quando o fruto do Espírito, sobre o qual fala Gálatas 5:22-23, se manifesta em nós, nem o pecado nem a religiosidade podem ser obstáculos instransponíveis para nossa caminhada. Quando o fruto do Espírito se manifesta em nós, mesmo que sejamos tentados e até “pisemos na bola” às vezes, o pecado não pode nos dominar, a religiosidade não pode nos prender com seus belos, porém falsos, discursos e ensinamentos, ou seus conjuntos de regrinhas que não têm nada a ver com uma verdadeira vida de santidade e fidelidade a Deus.

Adiante, o versículo 25 diz que se vivemos em Espírito, andamos n’Ele. Nossa crença e nossa prática são uma só. Damos fruto de verdade. Não somos como aqueles que, dizendo em outras palavras o que diz o versículo 26, “arrotam” santidade, se vangloriando de como são super crentes, “ungidões”, mas que no fundo tudo isso não tem nada a ver com seguir Jesus, e simplesmente não passa de uma competição profana para alimentar o orgulho e a inveja de seus corações.

Somos justificados pela fé, por nos rendemos a Cristo e Sua Graça, a qual não podemos resistir, na simplicidade de simplesmente baixarmos nossa cabeça e reconhecermos Sua maravilhosa soberania sobre nossas vidas enquanto Ele é quem faz a obra e frutifica em nós. E nós confessamos apenas que cremos n’Ele, que o poder é d’Ele, e que não intentamos entrar no céu a força, pensando que somos os bons. O chamado é pra que abandonemos o legalismo, não pra vivermos de qualquer jeito, mas porque temos liberdade em Cristo, e nessa liberdade podemos fazer a vontade de Deus, não com o peso de uma dura lei, com medo do inferno, mas com amor, amor que vem d’Ele e nos alcança e envolve.

Como dissemos antes, quanto falamos em obras da carne já, e só, lembramos de sexo, bebida, cigarro, drogas, e achamos que uma mera religiosidade vai nos purificar disso. Nos apoiamos no “não faça isso”, “isso pode, isso não pode”, mas a verdade é que essas frágeis regrinhas uma hora falham, e “a casa cai”, pois se levarmos nossas vidas assim, se trocarmos a plenitude do Evangelho por isso, estaremos tentando vencer a carne com a própria carne. Não adianta querer confrontar o pecado com religiosidade humana, pois esta religiosidade é pecado também. Ela não pode fazer nada por nós, e só nos afasta mais ainda de Cristo. A pessoa já está com o peso do pecado nas costas, daí ela “entra” pra uma religião que só coloca mais peso sobre ela, e é lógico que uma hora ela não vai aguentar, e talvez vai se afundar mais ainda no pecado, pois pelo menos o pecado é “mais divertido”.

Mas quando o fruto do Espírito se manifesta tudo é diferente. É tudo mais simples, pois é baseado e motivado pela Palavra que liberta, e não pelas doutrinas da religiosidade dos homens. Ele nos faz progredir, e não regredir. Nos torna equilibrados, inteligentes, e não burrificados. Nos torna imitadores de Cristo, e não fanáticos religiosos.

Nesse momento você pode se perguntar: mas quem é esse Espírito, e que fruto é esse? Bem, poderíamos ficar um bom tempo falando do Deus Pai, do Deus Filho, do Deus Espírito Santo – da Trindade. Certamente ficaríamos aqui falando horas de algo que é ao mesmo tempo complexo e simples. Ou poderíamos, se me permitem, exclamar como a canção de Renato Russo: “quem me dera ao menos uma vez entender como um só Deus ao mesmo tempo é três”. Mas vamos simplificar, e por nosso foco na essência.

Podemos entende-la voltando um pouco pra João 15. Lá Jesus também já falava de fruto. Ele diz que Ele, o Deus Filho, é a videira, o Deus Pai é o agricultor, e nós os ramos. Se permanecemos n’Ele damos fruto, pois um ramo fora da videira, como Ele diz em João 15:5, não produz fruto, nem faz nada. E em João 15:16 Jesus diz que não fomos nós, mas foi Ele quem nos escolheu para darmos fruto, e um fruto que permanece. No versículo 17 Ele fala que a natureza do fruto, que é detalhada no nosso texto de Gálatas 5, é o amor, e que o maior mandamento é darmos este fruto.

O fruto testifica que estamos em Cristo. Por causa deste fruto a maldade dos homens pode se levantar contra nós e nos perseguir, como perseguiram Jesus. Mas Ele prometeu que mesmo que tudo se volte contra nós, Ele enviaria o Consolador, o Espirito da verdade, que daria testemunho do próprio Cristo e frutificaria em nós (João 15:16). Jesus prometeu e cumpriu. Em João 16:13 Ele disse que iria para o Pai, mas enviaria o Espírito Santo, que hoje nos guia na verdade. Ele também disse em João 14:16-18 que rogaria ao Pai para que enviasse o Consolador, e que assim não nos deixaria órfãos, mas voltaria para nós. Ou seja, é claro que, como os discípulos, não o veríamos mais em carne e osso, mas Ele sempre estaria conosco através do Espirito Santo. Talvez seja difícil entender isso, mas o que importa é que, como Jesus fala durante os capítulos 14, 15 e 16 João, é que o Pai está no Filho, o Filho está no Espírito, e Eles são um, e que Deus, Jesus, o Espírito Santo sempre está conosco, nos consolando, nos socorrendo, nos capacitando e nos sustentando para fazermos a vontade de Deus, para darmos fruto, termos em nós a manifestação do fruto.

E se ainda fica a pergunta “o que é o fruto?”, como vimos, o próprio Jesus disse que tem a ver com amarmos a Deus e uns aos outros. E lá em Gálatas 5:22-23 é como se Paulo detalhasse características desse amor. Note que, num contraste com as obras da carne, temos o fruto do Espírito. As obras da carne não dizem respeito só ao fator egoísta do nosso pecado, não fazem mal somente pro cara que as pratica, mas afetam e também prejudicam ao próximo. De mesma forma que as obras da carne são uma manifestação de falta de amor, o fruto do Espírito, por sua vez, e a manifestação do amor em nós.

E é muito interessante o fato de Paulo usar o termo “fruto”, pois este tipo de metáfora muito é utilizado na Bíblia. Paulo fala de fruto em Romanos 6:22 e em Efésios 5:9 para descrever a conduta dos cristãos como sinal de transformação e de que andamos na luz. João Batista, em João 3:8 e Lucas 3:8, diz que o verdadeiro arrependimento gera fruto visível de mudança de comportamento. Podemos perceber também este fruto na parábola do bom samaritano, em Lucas 10:25-37. O amor que é fruto do Espírito é tal qual o amor de Cristo, e vai muito além da auto justiça legalista. O sacerdote não ajudou o cara que foi assaltado e agredido na estrada, o levita também não, mas um samaritano, considerado indigno pelos dois religiosos da parábola, foi quem fez a vontade de Deus, ajudou o próximo, amou, manifestou o fruto.

Ao falar do fruto do Espírito em Gálatas, Paulo começa com o amor, mas as outras características não podem ser separadas do amor. Não são coisas distintas. Não são frutos diferentes, e muito menos significa que cada pessoa tem ou um ou outro, que uma pessoa tem a paz, outra tem a mansidão. O fruto do Espirito é pleno. Só é fruto de fato se for completo. E do amor se seguem todas as outras coisas, todas juntas e interligadas, como manifestação verdadeira do fruto do Espírito, do amor.

Se tem o fruto, tem amor. Se tem amor, tem alegria, que traz consigo bom humor, força, ânimo, como diz Neemias 8:10, “a alegria do Senhor é a nossa força”.

Se tem o fruto, tem paz. Paz interior. Paz uns com os outros. Tem um ambiente agradável. Paz, mesmo em meio às dificuldades e perseguições. Quando Jesus falou lá em João 16:33 da vinda do Espírito, Ele também alertou sobre as perseguições e dificuldades, mas garantiu que não estaríamos sozinhos e que por isso nada poderia tirar nossa paz.

Em João 14:27 Ele diz que não nos dá paz como o mundo dá, não uma paz ilusória, mas a verdadeira paz que é baseada em Sua Palavra, da qual o Espírito, diz Jesus em João 14:25-26, nos faz lembrar sempre. Essa paz também tem a ver com sermos os pacificadores de quem Jesus fala em Mateus 5:9, que procuram a paz inclusive com seus inimigos, dando a outra face.

O fruto do Espírito é longanimidade. Longanimidade é sermos tolerantes uns com os outros, é sermos pessoas afáveis, sem mesquinharia, generosos.

Se tem fruto do Espírito, tem benignidade. Benignidade é bondade, no sentido de mais que fazer o bem, mas termos o bem em nossa natureza, no nosso caráter.

O fruto é fidelidade, que é lealdade uns com os outros, é honrar com o compromisso que temos uns com os outros. É não ser “fura olho”, mas ser de confiança, agir com exatidão, clareza. É sermos dedicados ao que fazemos aos outros, é sermos pessoas em quem se pode confiar, verdadeiros e transparentes.

O fruto é mansidão. Ser manso é não ser agressivo. Mas em Mateus 5:5, onde Jesus também se refere ao Salmo 37:11, mansidão também significa a característica de quem espera no Senhor, que confia que é Ele quem nos abençoa, e por isso essa pessoa não busca ganhar a vida por meios próprios e perversos. Significa também mansidão espiritual, que é ser humilde e submisso a Deus.

E se tem o fruto, existe domínio próprio, que é equilíbrio, é saber como se comportar nas mais diversas situações. É saber respirar, contar até 10, e, muito mais que isso, pensar como Jesus agiria no nosso lugar e agir como Ele.

Se tem o fruto, tudo isso é manifestado em nós. E Gálatas 5:25 diz que contra estas coisas não há lei. Contra estas coisas o pecado não tem poder. Contra estas coisas o legalismo da religiosidade perde toda sua suposta razão. Diante destas coisas o blábláblá gospel, os “atos proféticos”, as horas intermináveis de “adoração extravagante”, os usos e costumes, a pregação e as canções gospel egocêntricas, aquilo que pensamos que somos por nós mesmos, se resumem a nada. Pois o fruto do Espírito é manifestado em nós, e ele é a essência da nossa comunhão e de tudo o que fazemos. E se queremos fazer a diferença, não precisamos de estratégias mirabolantes, precisamos apenas da manifestação do fruto do Espírito.

Seguir Jesus – Um fascinante projeto de amor

Por Pedro Araújo

(*) Transcrição da preleção da noite de domingo, dia 10/02/2013, no Acampamento de Carnaval do Ministério de Jovens da 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Sinop.

“Os fariseus, quando souberam, que Ele fizera emudecer os saduceus, reuniram-se todos; e um deles, doutor da lei, para O experimentar, interrogou-O, dizendo: Mestre, qual é o grande mandamento na lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.” (Mateus 22:34-40)

O amor é o maior mandamento de Deus. O amor não anula as leis de Deus, mas as ilumina e aprofunda mais ainda. O amor sintetiza a lei, cumpre a lei. É o amor que motiva nossa firme obediência a Deus e Suas leis. O amor não é o oposto da lei. O amor não é mole, enquanto a lei é dura, mas “dureza” da lei é proporcional à dureza do nosso coração. E só um amor de rocha é capaz de nos fazer entender a essência da lei e militar contra o mal sobre o qual a lei nos alerta. Só um amor de rocha nos faz amar de verdade, a Deus e ao próximo – e essa é toda a lei.

Em contraste com isso, no texto acima mais uma vez vemos a presença dos religiosos, que apesar de toda cerimônia deles com o Mestre, não estavam interessados nos mandamentos de Deus, muito menos no amor, mas sim, como vemos repetidas vezes, o que eles sempre querem é testar Jesus. Sempre querem um motivo pra ter algo pra condenar, embora nunca consigam. Eles sempre querem estar com a razão, não importa quem possa sofrer ou deixar de ser amado por causa disso.

Como ocorria, de certa forma, com os religiosos mostrados nos evangelhos, até hoje existe uma tendência nas pessoas de separar o “amar” do “fazer a coisa certa”. Parece só uma questão de diferenciar “teoria” de “prática”, mas não. Muitos dizem, “não sou de teoria, sou de prática”, mas na realidade em muitos casos o que isso significa é: “faço tudo errado, mas pelo menos faço algo”. Por outro lado, os fariseus reivindicavam saber o que é certo, mas Jesus mostra-lhes que eles não sabiam nem faziam o que é certo. Na passagem paralela a esta, em Marcos 12:28-34, quando questionado sobre os maiores mandamentos, Jesus começa com a declaração inquestionável, numa referência a uma das coisas mais fortes na lei de Deus – “ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é único Senhor” – e prossegue com o primeiro mandamento. Quando diz isso, e todas as vezes em que fala da lei de Deus, Jesus não deixava brecha pra que ninguém questionasse aquilo Ele falava, demonstrando profundo conhecimento da lei, da teoria. Ninguém podia colocar Jesus em situação difícil em relação a Palavra de Deus pois Ele era, e é, a própria Palavra, o verbo encarnado.

Mas Jesus não discute teoria por discutir teoria, e também não coloca de um lado “teoria” e de outro a “prática”. Em Jesus as duas coisas são uma só. Não há como fazer a coisa certa sem amar, nem como amar sem fazer a coisa certa. Jesus deixa bem claro, que de amar a Deus e ao próximo depende toda a lei. E hoje o que mais temos são pessoas dizendo que fazem a vontade de Deus, mas não conhecem Sua vontade, e por isso, na realidade não a executam é nada. É muito comum, principalmente, vermos os “práticos” criticando os “teóricos”, mas quase ninguém entende qual é o mandamento de Deus, e muito menos o coloca em prática.

É porque existe um pensamento equivocado em nós sobre a vontade de Deus. Não sabemos qual a vontade de Deus. Estamos como os escribas e fariseus: “Mestre, qual o maior mandamento”? Mas por mais que ele seja claro, nos fazemos de desentendidos. Não queremos saber qual a vontade de Deus para fazê-la, mas sim para avalia-la segundo nossos parâmetros e julgarmos uns aos outros: “eu sou mais santo que você”.

Vejamos. O que esta geração pensa ser a vontade de Deus? Construir templos suntuosos? Juntar fortunas pro nosso egoísmo com a desculpa de estamos sendo prósperos? Viajar na maionese e dizer que estamos na “unção”? Falar um monte de asneiras e chamar isso de palavra profética? Gravar CD’s gospel com músicas vazias de Cristo e cheias de egocentrismo pra posar na mídia dizendo que isso é avivamento?

Queremos fazer coisas pra Deus, mas esquecemos que Deus mesmo não precisa que façamos nada pra Ele, pois Sua pessoa em Si não necessita de nada. A realidade é que a vontade de Deus que queremos fazer não passa de ritualismo vazio. Ignoramos que Deus escolheu de forma especial ser servido na pessoa do nosso próximo. Jesus disse que quando fizéssemos algo pra algum de Seus pequeninos era a Ele que estaríamos fazendo. É por isso que Ele diz “ame a Deus” e que o segundo mandamento é semelhante a este: “ame o próximo”.

Quer fazer algo pra Deus? Então faça pro seu próximo.

Jesus reforça em Mateus 12: “misericórdia quero, e não sacrifícios”. E como esta geração fala em “pagar o preço”, em “se sacrificar”, mas se esquece da misericórdia, se esquece de simplesmente ser educado com o seu próximo, estender-lhe a mão… E só o que nos resta é a desculpa: “Senhor, mas quem é o meu próximo?” – na tentativa de nos justificarmos, igual o escriba da passagem de Lucas 10:25-37, onde a mesma história do maior mandamento também é contada. Jesus responde a essa pergunta com uma parábola…

“Jesus, prosseguindo, disse: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de salteadores, os quais o despojaram e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. Casualmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e vendo-o, passou de largo. De igual modo também um levita chegou àquele lugar, viu-o, e passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão; e aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que gastares a mais, eu to pagarei quando voltar. Qual, pois, destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? Respondeu o doutor da lei: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Disse-lhe, pois, Jesus: Vai, e faze tu o mesmo.” (Lucas 10:30-37)

O sacerdote (apóstolo, grande homem de Deus, pregador de poder) passou e não fez nada… O levita (que toca no louvor, cantor gospel ungido) passou e não fez nada… Mas o samaritano, indigno, marginalizado, prestou-lhe os primeiros socorros e o colocou em repouso num lugar seguro. Qual destes fez a vontade de Deus? Qual destes entendeu o grande mandamento?

Se realmente estamos interessados no mandamento de Deus, temos que parar querer imitar aquilo que vemos nas TVs, que escutamos na maioria dos CDs e DVDs, que lemos na maioria dos livros que se dizem cristãos, que ouvimos na maioria dos encontros de “avivamento sobrenatural profético”, e voltarmos nossos olhos pro próximo. Queremos fazer a vontade de Deus? Então precisamos parar de fazer conferências pra discutir qual o maior mandamento, e cumprir a lei por inteiro, amando! E isso começa com pregar e praticar o Evangelho da verdade! Não com um amor displicente, de tapinha nas costas, com um amor de corporativismo gospel, mas com o amor que toma para si a dor e necessidade do próximo, daquele que é oprimido pelo mundo e pela religiosidade!

Fazer a vontade de Deus começa também com parar de idolatrar os lobos, parar de poupa-los e levantarmos a verdadeira voz profética contra esse besteirol profano que chamam por aí de “evangelho”, pois se na nossa prática de amor formos omissos no confronto contra tudo aquilo que fere a alma das pessoas, não estaremos amando como Jesus ensinou e mandou.

Precisamos amar doando nosso tempo, nossos recursos, nosso conhecimento, nosso talento, não em função de uma instituição religiosa, mas em função da pessoas! Precisamos amar abrindo nossas vidas, o que significa expor mesmo nossas vidas como a luz que deve ser colocada no alto pra que a casa seja iluminada. Amar abrindo mão de nossos supostos direitos, abrindo mão dos nossos fantasmas, da nossa síndrome de “não me toque”. Amar abrindo mão do marketing religioso. Amar, não com jargões e clichês, mas com uma palavra de conforto. Amar, não com “atos proféticos”, mas com atitudes concretas e sinceras.

Amar nos colocando como remanescentes marginais diante dessa geração de evangélicos “almofadinhas”. Amar nos colocando como subversivos dependentes da Graça diante dessa geração de super crentes que vive precisando se auto afirmar. Amar sem abrir concessões em relação à Verdade, pois é a Verdade que liberta. Amar porque o amor de Cristo, que nos amou primeiro, nos constrange a simplesmente não fazer outra coisa senão amar.

Precisamos amar, em todos os aspectos, na “teoria” e na “prática”. Por isso, se dizemos que seguir Jesus é o mais fascinante projeto de vida, este deve ser um dos pilares deste projeto: amar!

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