Recentemente li um excelente texto do Augustus Nicodemus Lopes intitulado “Jesus não era cristão”, e antes de você continuar a ler este meu texto seria interessante que você lesse o texto dele pra entender bem (o que você pode fazer clicando aqui). Basicamente, o Augustus argumenta que o cristão é um pecador que foi perdoado, justificado, nasceu de novo (enquanto Jesus nunca pecou, então nunca precisou confessar pecados, pedir perdão, tampouco nascer de novo); o cristão precisa de um mediador entre ele e Deus, mas Jesus não, simplesmente porque Ele é Deus e é Ele quem se fez nosso mediador para com o Deus Pai; o cristão deve empanhar sua vida “prática” em ser um imitador de Cristo (Jesus não precisava imitar ninguém, Ele é o exemplo inquestionável). Enfim, não se trata somente de um jogo de palavras, pois se fomos nos aprofundar nas verdades que a afirmação que o título do artigo traz talvez precisaríamos de um livro inteiro.
Só que mais recentemente li algo que parecia indicar para uma outra afirmação que a princípio pode até parecer se contrapor a esta, porém é algo talvez ainda mais equivocado: “Jesus era judeu”. Sim, é claro que sob todos os aspectos Jesus era um judeu autêntico (aliás, não havia judeu mais verdadeiro que Ele), mas no contexto que vi esta nova afirmação ser usada é algo muito tendencioso. E não, não foi um judeu que insinuou isso, foi um cristão. Tal afirmação foi, resumidamente, dada como resposta ao argumento de que “Jesus odeia religião”, apresentado no polêmico e desafiador vídeo de Jefferson Bethke (veja aqui). Bem, o vídeo não diz isto com estas palavras, sei que o Jefferson pega pesado (mas eu particularmente, analisando todo um “contexto global”, concordo com ele), porém foi o que o autor da nova afirmação entendeu, só que ele se equivoca muito mais ao concluir que, em suma e como eu pelo menos entendi, Jesus não odiava religião simplesmente porque Ele mesmo era judeu.
No meu ver, em nenhum momento o vídeo do Jefferson ataca a crença das pessoas, não é contra a Igreja, mas é sim uma crítica muito válida em relação a como a maioria de nos hoje – e digo principalmente nós que podemos ser considerados cristãos e “religiosos” – vê e vive religião, o que de fato, em grande parte dos casos [e infelizmente], é bem diferente da forma que Jesus via e vivia. O vídeo, embora eu possa até concordar que seja ultrarradical, apresenta mais algo como uma “cosmovisão”, mas a réplica ao vídeo (que você pode ler aqui), embora eu também concorde que seja muito válida, parece se limitar em defender mais um sistema religioso do que realmente fazer considerações em relação à “cosmovisão” do vídeo.
Bem, eu não quero aqui me ater a este debate (apresentei os dois lados, até deixei minha opinião de leve, mas cabe a cada um analisar), só que relacionando o artigo do Augustus Nucodemus com o vídeo e a réplica a ele me ocorreu uma outra consideração: “Jesus não era cristão (e também não era judeu)”. Uma vez que fique bem claro que minha consideração não é direcionada aos judeus, então você que é cristão como eu deve estar se perguntando o que isso tem a ver conosco – tem tudo. Lembre-se, não estou falando de etnia, de conduta, de costumes, mas sim de religião e seus aspectos mais cruciais.
Analogamente ao texto do Augustos, em relação a dizer que a religião de Jesus era o judaísmo podemos considerar três aspectos básicos que desmentem qualquer tentativa de afirmar isso (existem muitos outros também, mas esses três são mais básicos e simples de entender). Ora, os judeus precisavam constantemente oferecer sacrifícios de animais para obterem o perdão de seus pecados (Jesus, mesmo admitindo que Ele foi um exemplo de judeu genuíno, jamais precisou oferecer qualquer sacrifício de animais, a Bíblia não narra nada parecido – nem tente arriscar a passagem de Lucas 2:41-52 [quando o garoto Jesus então com 12 anos acompanha seus pais terrenos até Jerusalém pra celebração da Páscoa] pra falar bobagem, conjecturar tal coisa – além de ser heresia das bravas – não tem lógica alguma, pois Jesus não precisava sacrificar animais pra obter perdão de pecado algum por Si mesmo, e pelos pecados dos outros – a saber, nós – Ele a Si mesmo se entregou como o único, suficiente e perfeito sacrifício); os judeus criam nas profecias e esperavam pelo Messias que elas anunciavam que viria (Jesus veio ao mundo para cumprir as profecias, Ele era o Messias que os judeus tanto esperavam); e os judeus estavam debaixo da aliança da Lei, enquanto Jesus era o cumprimento da Lei e dos profetas e a consumação da nova e eterna aliança da Graça que nos alcançou pelo Seu sangue derramado na cruz. Sei que tais argumentos são até rasos, mas servem bem pra exemplificar.
Onde, afinal, quero chegar com isso? Bem, se afirmar que Jesus foi contra a religião é algo errado, dizer que ele era um religioso, e usar certos tipos de argumentos neste sentido pra encontrar em Cristo justificativa pra defender doutrinas humanas, é mais ainda. E muitas vezes é justamente isso o que tantos cristãos, suas denominações e ministérios insinuam pra defender sua filosofia e suas práticas. Fato inegável é que muitas igrejas evangélicas mais parecem um judaísmo “fake”, em que Jesus é um mero coadjuvante, e o Evangelho é apenas uma alegoria, enquanto a má interpretação dos escritos velho-testamentários é o compêndio doutrinário mor de seu sistema religioso. Firmados em conclusões estranhas sobre a Lei, conclusões estas que seriam piada [ou até ofensa] pra um judeu, estabelecem um conjunto de regras, usos e costumes que muitas vezes ingenuamente fomentam uma falsa santidade e podem chegar até ao extremo de invalidar a Graça. E mesmo quando o Antigo Testamento não é usado pra estabelecer um mecanismo opressor, como o visto em muitas denominações pentecostais, seu mal uso ainda tem primazia quando o objetivo é embasar atos “proféticos”, “unções”, moveres “sobrenaturais”, “visões” mirabolantes e todo tipo de tentativa de espiritualizar e mistificar, como ocorre em muitas denominações neopentecostais, aquilo que o Evangelho já elucidou e tornou simples e prático.
Se somos cristãos, então porque a maioria das nossas pregações [de auto-ajuda, auto-justificação, auto-santificação] são baseadas no Antigo Testamento? Não estou dizendo aqui que só o Novo Testamento deve ser usado. É justamente o contrário. A epístola aos Hebreus deixa bem claro o que precisamos entender sobre isso, pois se a Lei e os profetas são apenas sombras do que viria definitivamente à luz em Cristo, nós (principalmente por não sermos judeus, por sermos os gentios) não podemos nos basear em frações da verdade da Lei, ainda mais quando elas não apontam pra Cristo. O Velho Testamento, e toda a Bíblia, existe por causa de Cristo, e não, nunca, o contrário. É inegável que pra nós gentios o Novo Testamento é mais fácil de entender que o Antigo, e por isso mesmo não é certo complicar mais ainda aquilo que deveríamos simplificar, nos escondendo assim atrás de meias-verdades advindas de nossas visões tendenciosas com o fim de validar nossas “viagens” religiosas, doutrinárias e teológicas.
A epístola aos Colossenses fala maravilhosamente que toda a plenitude de Deus habita em Cristo. Sua Graça está totalmente disponível a nós. Então não faz sentido nos apegarmos a porções daquilo que limita a atuação da plenitude do Evangelho em nós e faz com que não sejamos nem submissos à Lei e nem beneficiários da Graça. Os judeus vivem o Antigo Testamento, mas nós somos cristãos, não podemos ficar vagando e pulando aleatoriamente entre pontos de uma aliança e outra, conforme for conveniente pra nossas próprias convicções religiosas, mas devemos nos embasar em toda a Bíblia, entendendo que Jesus é o centro.
Ora, tudo bem que Jesus não era cristão, muito menos judeu, mas nós somos cristãos, então está na hora de pararmos de viver e defender uma religião que nem é judaísmo e nem é cristianismo. Devemos de fato nos tornarmos discípulos de Cristo, vivendo o Evangelho puro e simples, amando como Ele. Tá na hora de pararmos de tratar nossa fé como uma mera religião através qual tentamos buscar Deus e entendermos de uma vez por todas que o Evangelho é Deus em busca de nós, nos alcançando com Seu amor, nos livrando da punição que merecemos e nos oferecendo o bem que não merecemos. Paremos de ficar buscando modos de estar mais perto de Deus através da religião, pois foi Ele quem se aproximou e veio até nós. Abramos nossos olhos, enxerguemos Jesus bem à nossa frente, de braços abertos pra nós, e vamos nos jogar. Quando fizermos isso, as pessoas que também precisam d’Ele como nós deixarão de olhar pra religião e ter medo dela, e também desejarão pular de cabeça na Graça de Deus, pois a religião deixará de ser a questão e o amor será o foco.
Se tudo o que temos é religião, tudo o que podemos oferecer às pessoas é religião (e elas cada vez mais não estão interessadas nisso). Se temos, vivemos, exalamos, fluímos, transbordamos Jesus, é isso o que as pessoas precisam e desejam (elas talvez não saibam disso ainda, então cabe a nós as ajudarmos a descobrirem que tudo o que elas precisam está neste momento disponível a elas, assim como a nós). Jesus era, é e sempre será muito mais do que uma religião. Ele é tudo o que a humanidade precisa. Se eu e você reconhecermos verdadeiramente isso, creio que as pessoas também reconhecerão.


